De forma surpresa, Kendrick Lamar lançou recentemente o álbum “GNX”, uma obra carregada de intensidade e ousadia, que expõe um artista sem paciência para os bastidores do hip hop e, sobretudo, para muitos dos que atuam nele. O álbum é uma espécie de declaração de guerra, com Lamar assumindo a missão de fazer justiça à cultura hip hop.
Após a treta com Drake, especialmente marcada pela faixa “Not Like Us” – onde Lamar o desqualifica, rotulando-o como um “intruso do hip hop” e “negro esquisito” –, parecia que a rivalidade havia sido encerrada com uma “morte lírica”. No entanto, três anos após “Mr. Morale & The Big Steppers” (2022), Kendrick retorna, aproveitando seu auge como um dos maiores rappers de sua geração, para ampliar suas críticas aos personagens do mercado e elevar o rap mainstream a um novo patamar sonoro.
Na faixa “Squabble Up”, Kendrick dispara: “It’s a full moon, let the wolves out, I been a dog” (É lua cheia, deixe os lobos saírem, eu fui um cachorro). Nessa frase, enquanto Drake se identifica como um lobo cercado por seus aliados (alguns que serviram como informantes durante a briga), Lamar se coloca como o cachorro – símbolo de lealdade e verdade. Essa dicotomia entre falsidade e autenticidade permeia o álbum, questionando quem realmente merece confiança.
Essa temática é reforçada em “Heart Pt. 6”, onde Kendrick homenageia os manos que contribuíram para sua formação pessoal e artística. Ele canta: “Sounwave let me borrow his clothes for shows as a hype man, To cook up in this room 'til the night ends. Time flies, I’m carryin’ debates of a top five” (Sounwave me emprestava roupas para os shows como hype man, para criar nesse quarto até a noite acabar. O tempo voa; estou carregando os debates sobre os melhores cinco).
Em “GNX”, Lamar destaca talentos locais de Compton, reafirmando seu compromisso com as raízes e a cultura do rap da West Coast sempre com seus olhos voltados para lá. Seguindo exemplo como Dr. Dre em “The Chronic” e Snoop Dogg em “Doggystyle”, que em seus albuns abriam espaço para novos rappers.
Outro destaque do álbum são as colaborações com SZA em duas faixas: “luther”, um Love song com toques de R&B contemporâneo, e “gloria”, que aborda sua relação com sua esposa. Kendrick e SZA já haviam colaborado no álbum “Black Panther” (2018), e sua presença aqui eleva a qualidade vocal e reforça a química entre os dois artistas, mostrando a ascensão da SZA como algo inevitável.
Uma das faixas mais impactantes é “Reincarnated”, que utiliza um sample de “Made Niggaz”, de 2Pac. A música, que integra a trilha sonora do filme “Duas Faces da Lei” (1997), evoca a energia visceral de Tupac sem soar caricata(e não precisou levar uma voz de IA para dar familiaridade com o dono da musica, ouviu Drake?) Kendrick aborda as perspectivas da vida de dois artistas afro americanos, no primeiro verso, John Lee Hooker, lendário guitarrista de blues, e no segundo Dinah Washington, aclamada como rainha do blues, onde a vida foi tragicamente interrompida por uma overdose. Lamar traça paralelos trazendo essas experiências que no processo da fama existem varias armadilhas principalmente para artistas negros.
A sonoridade que esse álbum tem, simboliza a ousadia que o Kendrick busca desde oseu ultimo álbum e que agora fica cada vez mais explicito. Sounwave seu beatmaker desde os primeiros trabalhos, unificado com vários produtores em especial Jack Antonoff que não é um produtor de rap mas trouxe camadas diferentes que era o que ele queria, trazer uma nova sonoridade para rap de West coast, onde o próprio Dr Dre por exemplo ajudou muito a construir essa temática g-rap, símbolo fundamento pro rap da California. Ele poderia facilmente fazer um “DANN 2” com letras complexas mas com sonoridades obvias para serem compreensíveis e muito bem digeríveis mas ele quer levar os seus fãs ao desafio, mudar o jogo, não dar o que eles querem mas o que eles precisam.
Em todo álbum de forma precisa ou não ele se declara para Compton não somente por ser sua cidade, mas foi por essas ruas onde se criou como rapper e como homem onde os fundamentos de um gangster são para alem do respeito que ele tem com os seus, mas como se constroe isso, seu trajeto. É nítido a importância que ele leva para suas obras, para que elas sejam relevantes para uma nova geração, assim como seus ídolos: Nas, Andre3000, 2pac que impactaram ele.
Desde o álbum anterior, Kendrick está levantando a bandeira de você falar a sua verdade e não ter problema algum se seus pares na industria está contigo ou não, se os críticos estão contigo ou não, falar o que você está sentindo isso pode ser visceral, raivoso, estranho porque são sentimentos reais. Esse álbum é a volta da vitoria tanto na batalha contra o Drake quanto pra quem não acredita não poder ser verdadeiro nesse lugar estanho e ilusório chamado sucesso.
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